Como enocuriosos que somos, ficamos com certo gosto de “quero mais”
assim que retornamos de nossa primeira viagem ao Chile. Havíamos visitado, naquela ocasião, apenas 6 vinícolas, mas
com esta pequena amostra foi possível perceber que este simpático país poderia
contribuir (e muito) para nossas aventuras enológicas e ratificar o gosto por
um bom vinho e por uma bela visita guiada. Pois bem, não havia por que esperar
melhor oportunidade e, transcorridos apenas 6 meses, retornávamos aos encantos
chilenos.
É
possível que vocês se perguntem: “– ora, os Enocuriosos não começaram há pouco
tempo nova série sobre vinícolas italianas?” Sim, é vero. O ponto é que viajamos ao Chile pela segunda vez antes de
nossa ida (a vinhas) ao velho mundo. Aí pensamos que poderia ser interessante
embaralhar tudo e postar um pouco de cada e intercalar as postagens para
retratar os dois mundos sem se preocupar em fechar uma porta antes de abrir a
outra.
Voltamos
ao Chile em março de 2015 para, em 9 dias, conhecer um pouco mais do país e das
regiões produtoras. Escolhemos como início o Valle del Elqui, localizado a aproximadamente
470 quilômetros ao norte de Santiago. Trata-se de uma região semiárida e mais
conhecida pela Ruta de las Estrellas – roteiro turístico com diversos observatórios
astronômicos e um céu de cair o queixo. (Esta região tornou-se célebre em função
da pouca umidade do ar – o que diminui a distorção das imagens vistas através
das lentes de aumento macroscópicas – e também porque suas montanhas são boas
barreiras à iluminação artificial proveniente das cidades – que contribui para
atrapalhar a observação de corpos celestes).
Descobrimos
que o Vale do Elqui é também conhecido pela produção de pisco – um tipo de bebida destilada feita a partir da uva (vários
subtipos da moscatel e algumas outras
espécies tal como Pedro Jiménez e Torontel – isso mesmo, a Torrontés, da busca incessante do Alexandre!).
O vale é coberto de parreirais em um volume espantoso para um território quase
desértico. O segredo é a existência de grandes represas que ajudam a reter a
água de alguns rios e afluentes e assim prover todo o recurso hídrico para sustentar
o desenvolvimento da região. Visitamos o Vale do Elqui no verão – que é o
período sem chuvas por lá e, por isso, havia algumas restrições quanto ao consumo de
água pois as represas estavam com o estoque muito abaixo do limite máximo (como
pode ser observado abaixo).
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Duas paisagens: mar de parreiras e reservatório em baixa. |
O vale
é conhecido pela qualidade de sua bebida típica (o pisco) e também pelos
passeios às pisquerias. Como não somos “piscuriosos”, começamos a buscar por viñas
na região, pois já havíamos escutado algo sobre a existência de vinhedos de
altitude nesta parte do Chile. Realmente não há muitas bodegas a visitar embora
haja produção de vitis vinifera para
alguns famosos produtores de vinhos da região central do país. Encontramos 3
vinícolas com bodegas instaladas dentro do vale e apenas uma delas aceitava
visitantes no período de nossa viagem (estávamos em plena vendimia). Esta pequena bodega é nossa estrela de hoje: a Cavas del Valle.
A Cavas
del Valle se encontra a uma distância considerável de Santiago e por
isso optamos por voar até a aprazível cidade de La Serena e de lá alugamos um carro – já que não há transporte
público tão frequente assim para o Vale. São apenas 90 quilômetros a partir do aeroporto seguindo a Ruta 41 até Rivadavia
e depois a Ruta 485 até o destino final. A viña
fica entre os distritos de Paihuano e Monte Grande.
Para
visitar esta bodega não é necessário fazer reserva – a vinícola recebe
visitantes em todos os dias da semana e apenas para grupos a partir de
10 pessoas é aconselhável um contato prévio. Não há cobrança de ingresso, pois
a visita é bastante simples, tal como a vinícola. O foco é a produção do vinho
e a manutenção de um estilo sóbrio, simples e natural. Aliás, é importante
destacar que toda a produção é de vinhos orgânicos.
Como não há esquema de agendamento, basta que o
visitante se apresente para que tenha início o passeio. Os vinhedos não são visitados
e tudo se resume a conhecer os diversos ambientes de um grande barracão que
comporta o espaço para degustações, a loja, a sala de processamento do vinho
(com todo o maquinário) e a sala de barricas. Como a produção é muito pequena,
o engarrafamento não é automatizado e a rotulagem e o tamponamento são totalmente
manuais – não deixe de ver as fotos do processo produtivo no sítio virtual da viña. Em nossa visita não tivemos a
sorte de ver todo o processamento, pois a colheita ainda não havia ocorrido.
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Sala de produção |
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O vinho a descansar |
É
importante destacar que a simplicidade da degustação não está à altura da
qualidade da produção: foram servidos quatro vinhos – um varietal de Moscatel
Rosada – Rosa Pastilla, um moscatel de colheita tardia – Cosecha Otoñal Moscatel e dois tintos – o Syrah Reserva e o Syrah Gran Reserva. Com
exceção do “late harvest” os vinhos mostraram uma identidade própria, diferente
do padrão chileno. Gostaríamos de ter provado também o Alto del Silencio mas como
a produção deste ícone é limitadíssima ele não faz parte das degustações. Assim
sendo, antes de ir embora, fizemos a tradicional visita à “lojinha” e compramos
nosso exemplar do Alto del Silencio 2011 por um preço bastante acessível – é
claro que não aguardamos sequer um mês para desarrolhar e nos deliciar com o
ícone da casa.
É "mais passeio" ou é
"mais vinho"?
É mais vinho.
A visita, embora simpática e simples, não chega a ser um passeio turístico (e
nem pretende sê-lo). Ainda assim, consideramos um bom ponto de parada no Vale do
Elqui, pois lá é possível fugir um pouco do script
das visitas guiadas e até emendar uma conversa com o pessoal da bodega –
afinal, o tempo transcorre de forma diferente quando não há horário marcado e
duração do tour pré-determinada. Caso
não tenha muito tempo para conversa, visite mesmo assim, pois o ponto forte é,
sem dúvida, o vinho. Toda a produção é orgânica, com excelentes exemplares de
Syrah e em tiragem bastante reduzida, e não é possível encontra-los em outro
lugar – não há importadoras ou distribuidoras credenciadas justamente em função
da baixa produção.
Nossa
viagem ao Chile estava apenas começando e já tínhamos 3 garrafas na bagagem!
¡Salud!
Enocuriosos
*fotografias de Dagô e Simone.
Eu e minha esposa passamos neste mesmo dia e degustamos os vinhos. Compramos algumas garrafas, inclusive o Alto del Silencio. Posso garantir que bate o famoso Don Melchor, e por bem menos dinheiro. Pretendo voltar só para comprar o Alto del Silencio.
ResponderExcluirQue legal! Também gostamos muito do Alto del Silencio e também pretendemos voltar em outra ocasião para comprar mais - e, claro, aproveitar mais daquela região toda, que é encantadora!
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