Idas e Vinhas Wine Club

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Enocuriosos... Viñas de Chile: Concha y Toro

Idas e Vinhas


Com um interesse cada vez maior em fazer passeios e viagens onde pudéssemos incluir mais experiências e aprendizado no mundo dos vinhos, pensamos que seria adequado fazer uma travessia um pouco maior e buscar contato com uma boa referência. Precisávamos escolher um destino que fosse próximo ao Brasil (por causa do preço das passagens aéreas), com bons produtores e que tivesse inglês ou espanhol como língua nativa. Com esses atributos ficou fácil escolher: Chile.

Nossa primeira visita ao Chile aconteceu em setembro de 2014. Ao todo foram nove dias de viagem com planos de muitos passeios turísticos e a intenção de visitar uma ou outra vinícola. Apesar do nosso crescente interesse no assunto, o foco realmente não era o vinho tão somente, mas sim conhecer a “multifacetada” terra natal de Pablo Neruda, aproveitando, claro, para incluir visitas a algumas vinícolas no nosso roteiro, sempre que possível. Mas acaba que, para surpresa nossa, visitamos bem mais vinícolas do que imaginávamos inicialmente e... adoramos! No saldo foram 3 produtores nos arredores de Santiago e outros 3 em Santa Cruz. Na sequência: Concha y Toro, Montes, Viu Manent, Casa Lapostolle, Cousino Macul e Undurraga. Falaremos de todas elas em postagens adiante, mas agora contaremos como foi a nossa visita à famosa Concha y Toro.

(Não. Não vamos falar aqui dos vinhos de supermercado a preços acessíveis, nem da tão comentada lenda da bodega protegida pelo “capiroto” ou algo assim. Vamos direto ao ponto: a visita.)

Já havíamos lido em alguns blogs que é muito simples e viável ir de transporte público para a famosa vinícola, partindo do centro de Santiago. Foi o que fizemos e, de fato, funciona. Pegamos o metrô na estación Santa Lucia e desembarcamos na estación Las Mercedes, onde tomamos um táxi (há um ponto bem na saída do metrô e todos os taxistas ali estão acostumados a levar enocuriosos e enófilos para a vinícola – é um trajeto bem simples, de 15 minutos apenas). Ao todo a viagem durou 1 hora e o custo foi muito barato. Ainda porque, na saída do metrô, vimos um casal de brasileiros muito simpáticos que também estava indo para a vinícola e perguntamos se eles se incomodariam de “dividir” um táxi conosco. Eles toparam de pronto.

Assim que chegamos à vinícola, fomos conduzidos à portaria para os procedimentos “burocráticos” (confirmação do agendamento que havíamos realizado, sem dificuldades, através do sítio virtual; realização do pagamento e recebimento do adesivo de identificação do tour escolhido – no nosso caso, o “Marques de Casa Concha”, onde degustaríamos quatro vinhos da linha de mesmo nome). Após esta etapa, nos foi indicado o ponto inicial da visita guiada e descobrimos que o tour já havia começado (!) – embora tenhamos nos apresentado com antecedência razoável e houvesse ainda uma fila de pessoas realizando o pagamento na portaria (incluindo o casal que chegou conosco). Nossa sugestão é: procure chegar com muita antecedência para não vivenciar esta atitude..., digamos, deselegante por parte dos anfitriões... Tivemos que correr bastante para não perder o grupo, que seguia caminhando pela extensa propriedade.

O tour apresenta roteiro bem organizado e começa na parte externa, em frente à antiga sede da propriedade, outrora residência dos fundadores da bodega.  A guia (muito simpática e à vontade) nos apresentou também um pequeno quarto de terreno onde estão plantados exemplares de todas as cepas cultivadas pela casa – a título de demonstração. Como estávamos no fim do inverno, as videiras estavam adormecidas e não foi possível identificar qualquer diferença entre elas e tampouco admirar a beleza dos parreirais, que se espalhavam até perder de vista. Foi nesse ambiente que a guia nos contou também a história da uva Carménère – a cepa considerada símbolo do Chile.
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Parreiras na dormência do inverno.
A Carménère é uma cepa europeia que, atacada por uma praga - a filoxera, chegou a ser considerada extinta em todo o mundo. Até que... percebeu-se que os vinhos feitos no Chile a partir da uva merlot eram muito “estranhos”. Análises laboratoriais revelaram que, entre as amostras das uvas utilizadas para aquele vinho, havia exemplares da “extinta” cepa trazida anos antes por imigrantes que não sabiam o que tinham em mãos. Hoje o Chile é o único país que cultiva a carménère “pura”, sem o emprego de técnicas de enxertia, pois está protegido (pela Cordilheira dos Andes e pelo Oceano Pacífico) da praga que assola a espécie no resto do mundo.

Depois das apresentações na área externa, das histórias contadas e de um vinho degustado ali fora mesmo, nossa guia – mais simpática e mais à vontade a cada vinho degustado (que ela também bebia com indisfarçável satisfação) nos convidou então a entrar para a cava de envelhecimento e guarda em cujas paredes foi projetado um filme (animação) ilustrando a lenda do Casillero del Diablo. Ao todo, nesse trajeto, são degustados 3 vinhos, incluindo o Gravas del Maipo, um dos ícones da casa (e bem caro). 

Todo esse roteiro até aqui atendia tanto ao tour básico como ao tour “top”. Nossa (já alegre, após a terceira prova de vinho) anfitriã, então, separou os grupos e nos conduziu até uma grande sala onde seria realizada a segunda etapa de nosso passeio, agora sim: a degustação orientada “Marques de Casa Concha”.

Neste momento trocamos a guia por uma enóloga que orientou a degustação na qual foram servidos quatro exemplares da linha “Marques...”: Chardonnay, Merlot, Syrah e Cabernet Sauvignon (seguindo a já tradicional ordem de “complexidade” dos vinhos: sempre começando pelos mais “leves” e terminando pelos mais “encorpados”). Os vinhos foram acompanhados de queijos igualmente ordenados de forma a harmonizar (ou, como se diz no Chile, “maridar”) com cada um deles. Durante esta parte da visita foram dadas algumas informações básicas (mas importantes para enófilos iniciantes – ou enocuriosos como nós) a respeito de coloração, aromas e sensações na boca, ajudando a compreender melhor e a expandir nossas percepções a cada gole.
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As taças saíram cortadas mas não foi efeito do vinho!
Gostamos dos vinhos servidos, especialmente o Chardonnay e o Syrah, e apreciamos muito os “maridajes” com os queijos oferecidos (cabra, mantecoso, brie e pecorino - estavam deliciosos e “casaram” muito bem).

Quando a enóloga terminou de fazer todas as considerações sobre o último vinho e o queijo sugerido, pediu a todos que se retirassem da sala, alegando que haveria outro grupo para ser atendido ali, e informou que poderíamos sair com a tábua de queijos e apenas com a taça de vidro em que foi servida a água (as outras eram de cristal). Para que cada um terminasse de beber o que restava em suas taças, foi necessário escolher qual o vinho preferido e verter o conteúdo para a taça regalo – foi preciso beber a água antes. Muito pitoresco, para não dizer constrangedor, foi ver todos os pagantes do tour ($$$) iniciarem um “vira-vira” e transbordo de taças, já em pé, e saírem “garbosos” com suas tábuas de queijo e a taça com a “sobra” escolhida nas mãos. Ah, sim, fomos orientados pela enóloga a utilizar as mesas do pátio para finalizar o que não pudemos fazer conforme o esperado. Nova surpresa então: assim que nos sentamos à mesa, um garçom veio nos trazer o cardápio e anotar o nosso pedido (!?). Explicamos o que estava acontecendo, que estávamos ali por orientação da enóloga, que estávamos terminando nossa degustação do tour etc..., e ele nos informou que aquele espaço era destinado apenas aos clientes do restaurante mas que poderíamos utilizar as mesas por um breve instante... Saímos de clientes premium a solicitantes de um favor.

Após a visita/degustação (e os incidentes desconcertantes) e ao terminarmos nossa taça de vinho e nossa tábua de queijos na mesa do pátio, nos restava ir embora. E a saída tem acesso, naturalmente, pela loja. Tínhamos direito a 10% de desconto por termos pago a degustação, mas descobrimos, só então, que esse desconto era aplicável apenas aos vinhos da linha Marques de Casa Concha. Ficamos um pouco decepcionados, pois pretendíamos cometer umas “ousadias”... 

Acabamos comprando duas garrafas dos vinhos que mais apreciamos na degustação, o Chardonnay e o Syrah Marques de Casa Concha. Pagamos um preço razoável, longe de ser uma “pechincha” (contrariando nossa expectativa) já que estávamos comprando diretamente no produtor. Lojas especializadas em Santiago praticam preços iguais e até menores para os mesmos produtos. Ficamos, outra vez, surpresos...

É "mais passeio" ou é "mais vinho"?
É “mais vinho”. A parte do passeio na área externa da propriedade e a visita ao “casillero” (com o desenho animado sobre a lenda), apesar de aprazível e da imensa simpatia da guia que nos conduziu, acrescentaram pouco. A degustação em si, excetuando-se o final desconcertante, foi muito proveitosa, prazerosa e valeu o montante pago. Na ocasião em que lá estivemos não era possível fazer apenas a degustação mas, como é comum em outras vinícolas, talvez a Concha y Toro também já esteja permitindo o acesso apenas para fazer provas de vinhos. Não deixe de se informar a respeito quando for agendar pela internet.

Enocuriosos.
* Fotografias de Dagô e Simone.

3 comentários:

  1. Também pretendo ir ao Chile esse ano. Me diga uma coisa... Como fizeram para ir até as vinícolas? Agendando no hotel? Fazia parte do pacote da viagem? De carro, grupo?

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    1. Olá! No Chile fizemos tudo por nossa conta. Não é difícil e você se programa do seu jeito, com mais liberdade de tempo, horário e escolhas... Sai mais barato e, com a economia, você ainda pode comprar mais garrafas de vinho! A primeira coisa a fazer é contactar as vinícolas (por e.mail e/ou telefone disponíveis no sítio virtual) para agendar o passeio. Nas vinhas dos arredores de Santiago (Conha y Toro, Undurraga e Cousino Macul) nós chegamos por meio de transporte público, a partir do centro e foi muito fácil. Nos casos da primeira e da última era preciso fazer um último trecho de táxi. Nosso deslocamento até Santa Cruz também se deu por ônibus, partindo do Terminal Alameda. Em Santa Cruz os trajetos até as vinhas (todas previamente agendadas) foram feitos de táxi - é possível negociar o preço antes da corrida. Daremos outras informações conforme formos postando sobre cada vinícola visitada no Chile. Espero que possamos ter ajudado! Ótima viagem!

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  2. Quer seguir nos acompanhando nesta viagem? Ela continua aqui: http://www.idasevinhas.com.br/2015/05/enocuriosos-vinas-de-chile-montes.html

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